A ideia de que traços de personalidade são fixos tem sido desafiada pela psique contemporânea: embora os psicopatas representem cerca de 1% da população, eles respondem por uma parcela desproporcional de crimes violentos. Distinções importantes ajudam a entender o campo: psicopatia, sociopatia e transtorno de personalidade antissocial não são sinônimos, mesmo que muitas vezes se cruzem na prática clínica. Quem observa as pesquisas percebe um ponto comum: a dificuldade de sentir ou reconhecer o sofrimento alheio, bem como a hesitação em demonstrar remorso ou culpa. A pergunta que move o debate hoje não é apenas se é possível mudar, mas como fazê-lo com responsabilidade, eficácia clínica e respeito aos direitos humanos.
Os estudos de neurociência traçam um mapa interessante: pessoas com traços psicopáticos costumam ter respostas fisiológicas atenuadas ao sofrimento de terceiros — menos excitação cardíaca, menos sudorese, menor mobilização da pupila ao encarar expressões de medo. Em um estudo de 2019 envolvendo indivíduos com histórico de violência, observou-se que quanto mais traços de psicopatia eles apresentavam, mais fraca era a excitação fisiológica diante de rostos assustados. O resultado é perturbador: algumas pessoas com esse conjunto de traços podem ter dificuldade em aprender como suas ações afetam emocionalmente os outros.
A prática clínica tem alternado entre ceticismo histórico e avanços graduais. Em prisões e hospitais penais, reduções modestas na reincidência foram associadas a programas cognitivo-comportamentais destinados a reduzir o risco. O que não é novo, porém, é a ideia de que intervenções precisam ser cuidadosas e personalizadas. Um marco de mudança veio com o Serviço Prisional e de Liberdade Condicional do Reino Unido (HMPPS), que, após fracassos de iniciativas anteriores, introduziu o programa Building Choices. Em vez de mirar tipos específicos de crime, ele foca em pontos fortes, habilidades de manejo emocional e relacionamentos saudáveis, com sinais promissores de eficácia.
Antes disso, houve abordagens controversas e brutalmente ineficazes. A chamada cápsula de encontro total, na Divisão Oak Ridge de segurança máxima em Penetanguishene, Canadá (1965–1978), permitia sessões de até duas semanas sem participação voluntária, com pouca supervisão terapêutica e uso de força. Experiências assim alimentam o ceticismo de parte da comunidade científica e do público. Ainda assim, há caminhos alternativos que vêm mostrando resultados. Terapia comportamental dialética (DBT) tem apoiado a redução da automutilação em transtorno de personalidade borderline, e intervenções baseadas em mentalização mostraram quedas no comportamento agressivo em transtorno de personalidade antissocial, apontando que intervenções personalizadas podem ser mais eficazes que abordagens genéricas.
Uma descoberta particularmente relevante envolve o que muitos chamam de “empatia motivada”: estudos de neuroimagem mostram que, quando orientados a sentir o que os outros sentem, alguns psicopatas podem apresentar respostas neurais de empatia semelhantes às de não psicopatas. Não é uma mythologia: é uma pista de que a empatia pode ser acionada, e não apenas esperada como traço inato.
Os sinais são mais promissores quando olhamos para a infância e a adolescência. Pesquisas com jovens em risco mostraram que intervenções parentais adaptadas, que enfatizam carinho, sensibilidade e respostas consistentes a recompensas — em vez de punições — resultaram em reduções significativas de problemas comportamentais, traços insensíveis e agressividade em crianças de 3 a 6 anos (2018). Um estudo de 2022 relatou efeitos positivos em adolescentes após uma abordagem baseada em pontos fortes, ajudando as crianças a reconhecerem suas capacidades, ao invés de apenas punir falhas.
Portanto, o campo está amadurecendo: talvez a pergunta não seja se psicopatas podem mudar, mas como aprimoramos nossa capacidade de ajudá-los a mudar com dignidade, eficácia clínica e responsabilidade social. O pesquisador Steven Gillespie, que atuou como consultor para o Ministério da Justiça do Reino Unido, destaca o papel de financiamentos de organizações como o Economic and Social Research Council, reforçando que ciência de qualidade exige investimento estável em longo prazo.
O cenário não é simples nem uniforme, mas aponta para uma direção possível: intervenções mais humanas, fundamentadas na neurociência, na psicologia da aprendizagem e na ética, podem ampliar oportunidades de redução de violência e melhoria de relações — inclusive no ambiente corporativo e em lideranças que investem em competências socioemocionais desde a juventude. A empatia, tratada como habilidade treinável, pode se tornar uma ferramenta de transformação para indivíduos, instituições e comunidades.
A reflexão que fica é prática: como aplicar, com responsabilidade, esses aprendizados em políticas públicas, escolas e empresas, para cultivar ambientes menos violentos e mais colaborativos, sem criar estigmas nem culpabilizar os indivíduos pela complexidade de seus traços?